09 março 2010

Noite de terror

O Jesualdo hoje fez-me lembrar o Jack Nicholson em "The Shining"...

08 março 2010

Noite dos Oscars

Já começa a ser um ritual.
Na noite dos Oscars, lá vou eu para o sofá, agarro num cobertor para me aquecer as pernas e arranjo coisas de comer para o estômago não sentir também a diferença de temperatura.
Ontem não foi excepção e à uma da manhã lá estava eu com os olhos sintonizados na TVI (parte chata da coisa).
Da famosa "red carpet", não falo muito e deixo o assunto para especialistas (tipo revista Caras ou Nova Gente), mas gostei particularmente de ver o George Clooney a quebrar o protocolo e a andar que nem um maluco a cumprimentar os curiosos atrás das grades que por lá andavam.
Falando da cerimónia em si, não prometia grande coisa. 
Não havia filmes soberbos este ano, tirando uma ou outra excepção (mas já lá vamos), e a luta marido vs. mulher parecia ter ganho contornos épicos. Aquilo que mais me alegrava era poder ver um dos mais talentosos actores de comédia do momento, Alec Baldwin, a apresentar em conjunto com o veterano Steve Martin. Mas, e começo já por concluir, a parelha não foi espectacular. Tirando alguns momentos bem tirados, não houve grande inspiração - ou seria tempo, já que decidiram cortar à duração do programa para chamar mais audiência? - e acabei por sair um pouco desiludido com a apresentação. Até porque a organização prometia a primeira hora de programa mais dinâmica e fantástica de sempre, e eu só me lembrava do Hugh Jackman no ano passado (que já não foi nada de especial, veja-se lá). A rapidez com que despacham agora os vencedores é também constrangedora... Afinal, os heróis da festa são eles, e quando apenas têm 45 segundos para falar...
Falando agora da distribuição das estatuetas douradas, "The Hurt Locker" limpou aquilo (quase) tudo. Até algumas das categorias técnicas que seria de esperar que fossem para "Avatar" acabaram por ir para o filme de Kathryn Bigelow sobre a guerra do Iraque. Por falar na realizadora, esta edição dos Oscars acabou por ser histórica, já que foi a primeira vez que uma mulher conquistou a estatueta mais querida, num "mundo" habitualmente dominado por homens. Espero sinceramente que as coisas vão mudando, porque fazem falta outras visões na sétima arte.
"The Hurt Locker", um dos mais improváveis vencedores de sempre, conseguiu a proeza de ser um filme independente, de ter um orçamento reduzido, de ter andado em festivais europeus há 2 anos e de apenas ter entrado no mercado americano no ano passado (facto que lhe permitiu concorrer) e de vencer o mais caro e programado filme de toda a história cinematográfica. Aliás, passou por Portugal no final do Verão e ninguém deu por ele, tanto que até já foi editado em DVD. 
Foi a vitória da simplicidade sobre glamour, do pobre ao rico, do David contra o Golias. Aliás, ver um filme como "Avatar" receber apenas prémios nas categorias técnicas "cheira" a derrota pesada...
Já aqui dei a minha opinião sobre grande parte dos filmes concorrentes, e preferi que tivesse ganho um filme sentido, intenso, real e com um argumento sobre um que assenta toda a sua trave-mestra nos efeitos de imagem e nos CGI. Mas fiquei, mais uma vez, desiludido por ver que a luta se resumiu a dois (quase uma luta de géneros e de fomentadores das historietas tão típicas naquela cidade), enquanto o filme mais brilhante de 2009 assistia à batalha, com vontade de matar mais uns nazis, porque os de "Inglourious Basterds" parece que não foram suficientes. O filme do génio Quentin Tarantino passou mais uma vez ao lado da cerimónia. Eu tenho para mim que o criador de Pulp Fiction ou Kill Bill nunca ganhará nada descaradamente enquanto não estiver na fase descendente da carreira. Não sei se o ego dele colide com os da Academia, não sei se o consideram demasiado afastado do mainstream Hollywoodesco, mas sei que aquele gajo merecia, no mínimo, o prémio de melhor Argumento Original. Aliás, acho que já é estranho ele ser nomeado.
Assim, um filme daquela qualidade (para mim, de longe o melhor do ano) ficou restringido a receber um prémio pela soberba e demoníaca interpretação de Christoph Waltz (não lhe dar o prémio seria demasiado escandaloso), ele que foi juntamente com Mo'nique - na sua intensa e fantástica interpretação em "Precious" - o grande actor da noite. Curioso, aliás, verificar que as melhores performances em termos de actores pertenceram, na minha opinião, aos apelidados de "secundários", mas que prenderam os espectadores dos respectivos filmes até ao fim como mais ninguém. Na distribuição das restantes estatuetas a actores, não houve surpresas e Jeff Bridges conquistou o tão almejado prémio. A primeira interpretação marcante dele foi em "The Big Lebowski", dos imrãos Coen, e mesmo sem ter visto "Crazy Heart", arrisco-me a dizer que se estiver ao nível da do filme de 98, então mereceu inteiramente! Sandra Bullock conseguiu receber menos de 48 horas os prémios antítese um do outro: o de pior actriz em "The Proposal" (nos Razzies) e o de melhor actriz em "The Blind Side" (nos Oscars). Coisa nunca dantes vista, mas que tendo em conta o seu desportivismo e sentido de humor, foi a melhor coisa que lhe podia ter acontecido.
Por fim, gostei de ver "Up" ganhar a melhor animação e a melhor banda sonora (que é de facto linda!), não gostei de ver "Up In The Air" e "District 9" sem nenhum Oscar e gostei de ver o Ben Stiller a falar Na'vi. 
Foi sem dúvida dos momentos mais divertidos da noite!
Uma edição dos Oscars que não vai deixar muitas saudades, tirando o momento histórico de ver a primeira mulher a vencer na categoria de Realização.
Aqui fica a lista de todos os vencedores:
Melhor Filme: "The Hurt Locker"
Melhor Actor: Jeff Bridges, "Crazy Heart"
Melhor Actriz: Sandra Bullock, "The Blind Side"
Melhor Realizador: Kathryn Bigelow, "The Hurt Locker"
Melhor Filme Estrangeiro: "El Secreto de Sus Ojos", Argentina
Actor Secundário: Christoph Waltz, "Inglourious Basterds"
Actriz Secundária: Mo'Nique, "Precious"
Argumento Original: Mark Boal, "The Hurt Locker"
Argumento Adaptado: Geoffrey Fletcher, "Precious"
Filme de Animação: "Up", Pete Docter
Direcção Artística: "Avatar"
Melhor Guarda-Roupa: "The Young Victoria"
Melhor Maquilhagem: "Star Trek"
Melhor Cinematografia: "Avatar"
Melhor Documentário: "The Cove"
Efeitos Visuais: "Avatar"
Edição de Som: "The Hurt Locker"
Mistura de Som: "The Hurt Locker"
Edição de Filme: "The Hurt Locker"
Banda-sonora Original: "Up"
Canção Original: The Weary Kind, "Crazy Heart"
Em resumo:
Vencedor da noite: "The Hurt Locker"
Derrotado(s) da noite: "Avatar" e "Up In The Air"
Injustiçado da noite: Quentin Tarantino (o do costume)

Até para o ano!

07 março 2010

The Blind Side

A história verídica de um adolescente sem-abrigo acolhido por uma família rica dos EUA e envolvido num ambiente completamente distinto do seu - habituado à violência e droga de um bairro social, passa a frequentar a "alta sociedade" e um colégio privado cristão.
 
"The Blind Side" é uma posição de futebol americano (pelo que percebi do filme). É ocupada por um jogador que deve, acima de tudo, defender o "quarterback" (o gajo que manda a bola para a frente) de qualquer placagem adversária. É aquela posição em que o seu ocupante está sempre lá, aconteça o que acontecer, para proteger a sua equipa. E é também um bom resumo do filme.
"The Blind Side" é uma história de amor, de caridade, de vontade de ajudar o próximo. É um murro no estômago aos estigmas que todos nós criamos sobre determinada classe social ou grupo.
Sandra Bullock faz (e muito bem!) de "tia de Cascais" empertigada com um coração de manteiga, e é coadjuvada por um jovem bruta-montes cheio de razões para ser violento, criminoso e mal-feitor, mas tudo o que consegue ser é a pessoa mais calma e amiga do mundo.
Não sendo um filme de mover montanhas, está aqui uma história bem feita e comovente em alguns pontos, com boas interpretações (o "irmão" mais novo é de ir às lágrimas, tal a "raça" do miúdo) e, como já disse, algumas lições de vida. Para ver e para pensar um pouco (não muito).

7/10

06 março 2010

Up In The Air

Há umas semanas, vi "Up In The Air", mais um dos filmes na corrida aos Oscars e que ainda não comentei por aqui. Tinha uma certa expectativa em relação a este filme, principalmente porque é do Jason Reitman, o realizador de um dos filmes mais bem conseguidos de há 2 anos, o "Juno".
A história do filme é algo básica e simples - mas não simplista -, e assenta na vida de um homem de meia-idade (George Clooney) que tem como função despedir pessoas de diversas empresas espalhadas pelo país e que, por isso mesmo, passa a vida a viajar, desligando-se quase por completo de relações interpessoais e de quaisquer bens que o façam sentir ter uma casa, um ponto onde sempre se pode abrigar.
O filme é por si só uma grande crítica a toda a sociedade actual, cheia de plastificações, cheia de coberturas para as verdadeiras faces dos intervenientes. Temos o "bon-vivant" que apenas vive com uma pequena mala em que carrega tudo o que realmente necessita (aliás, utiliza o exemplo da mala para dar palestras motivacionais) e que não se preocupa nada com relações - sejam elas de que tipo forem -, temos a jovem recém-licenciada cheia de ideias inovadoras mas por dentro não é mais do que insegurança, e temos a versão feminina (ou quase) do primeiro caso descrito. Os contrastes vão sendo evidenciados ao longo do filme, principalmente tendo em conta a restante família da personagem principal, que não é mais do que a antítese da mesma.
"Up In The Air" é um filme - dir-se-á - leve, descontraído, mas que ao mesmo tempo consegue falar com seriedade de alguns dos grandes problemas da sociedade actual, como o desemprego, a solidão, a efemeridade das relações. No fundo é um filme leve, mas que deve ser levado muito a sério.
O fim não é mais do que uma grande lição de vida, um olhar intrínseco para aquilo que a sociedade actual exige de nós e aquilo que nos dá de volta, quando se vê que os grandes objectivos da vida muitas vezes são algo supérfluos. 
Um excelente filme, contado de uma perspectiva bem refrescante e com grandes interpretações dos principais intervenientes - prova disso são as 3 nomeações para os Oscars para os 3 principais actores. 
Resumindo, "Up In The Air" é um filme para ver descontraidamente, sem nunca largar do pensamento a mensagem que o mesmo quer transmitir.

8/10

The Hurt Locker

Este filme andou na rota de festivais europeus em 2008, mas como apenas em 2009 chegou aos EUA está habilitado a ganhar umas estatuetas.
"The Hurt Locker" - em português "Tempos de Guerra" - é um filme sobre a Guerra do Iraque, sem no entanto ser mais um filme de guerra.
E passo a explicar porquê.
Habitualmente, os filmes de guerra regem-se pela máxima "Se tiver menos de 4 explosões e menos de 7 braços e pernas a voar por minuto, não conta!". De notar que também há explosões e tiroteios, mas nada que ultrapasse o limite do razoável.
"The Hurt Locker" faz precisamente o contrário. Faz-nos perceber que a guerra não é tão emocionante e activa como podemos pensar. Faz-nos ver o outro lado da guerra. Faz-nos sentir o lado real da guerra.
Durante as 2 horas de filme, é-nos contada a história de um grupo de três militares da brigada de explosivos, encarregues de desactivar os mais mirabolantes engenhos explosivos e liderados pelo Sargento James, o maior "guru" daquela arte.
Kathryn Bigelow (por curiosidade, é a ex-mulher do famoso James Cameron de "Titanic" e "Avatar") consegue colocar emoção, drama e suspense num filme particularmente "parado", como dirá muita gente. Mas é nesses momentos calmos, e sem pressas nenhumas, que se conseguem captar melhor as emoções dos intervenientes, revelando as suas fraquezas, as suas forças, as suas loucuras, as suas convicções. E esse é o ponto forte do filme. Não tenta fazer as cenas à pressa, dá-nos as situações mais diversificadas de um cenário de guerra, sem nunca perder de vista o lado mais humano dos militares.
Quanto à realização, é feita de um modo algo invulgar, sempre numa perspectiva muito próxima do actor, de tal modo que por vezes parece que estamos a assistir a um documentário, o que torna tudo um pouco mais real.
A fotografia é excelente, o tratamento dos cenários de guerra, quer no deserto quer na cidade de Bagdad são muito bem conseguidos.
Quanto a interpretações, as três personagens principais conseguem interpretar na perfeição três estereótipos de militares. Aquele que não sabe muito bem como lá foi parar, aquele que está ciente do seu papel mas que tem os pés bem assentes na terra, e aquele que é viciado no seu trabalho e na sua função. O último - e como se pode ver pela "tagline" do filme - é o centro de toda a história, e Jeremy Renner consegue interpretar o papel na perfeição.
Tudo o resto, deve ser visto a apreciado, porque está aqui um dos bons filmes do ano, vindo de mais um filme-surpresa, sem aqueles orçamentos bombásticos da indústria de Hollywood, tal como "District 9" por exemplo. Será isto um sinal para a indústria norte-americana?

8/10

05 março 2010

Precious

Ontem foi dia de ver "Precious", mais um dos nomeados para melhor filme, e um dos mais nomeados para a cerimónia que se realiza no Domingo, candidato a 6 estatuetas, quase todos nas principais categorias.
O filme é baseado num livro que foi um grande sucesso em 1996, e retrata a história de uma mãe adolescente de 16 anos - Precious -, obesa, à espera do segundo filho do seu próprio pai e vítima de violência doméstica, quer verbal quer física por parte da mãe. Além disso, Precious é iletrada (praticamente não sabe ler nem escrever) e é uma aluna problemática numa escola de um bairro problemático - Harlem, em Nova Iorque. Depois, a mudança para uma escola especial e diferente ajuda a transformar a vida da jovem e frágil Precious, pois aí arranja amigos e, acima de tudo, consciência de toda a situação que vive.
A história é sem dúvida cruel, dura e muito real(ista).
A violência (verbal e física) não nos é dada de forma gratuita, mas é-nos dada na proporção devida - e durante boa parte do filme.
O filme é-nos apresentado através da visão da jovem adolescente, fazendo-nos sentir as suas angústias, as suas alegrias, os seus dilemas, os seus sonhos.
As temáticas abordadas são o ponto forte do filme. Violência, gravidez na adolescência, incesto, DST, preconceito e pobreza são assuntos recorrentes e são a base do filme, para além da soberba interpretação de Mo'nique - a mãe de Precious -, que nos faz muitas vezes ter medo dela.
É um filme que vale pelo tema e pela sensibilidade com que o assunto nos toca a todos. Não é soberbo, mas é bastante agradável.

7/10

04 março 2010

MASSIVE ATTACK - "Heligoland"

Massive Attack. O regresso mais aguardado do ano. Depois de 7 anos sem editarem nenhum álbum, a banda de Bristol decidiu-se finalmente a lançar mais uma obra para o mercado, depois de já terem estado perto de o fazer há uns anos.
Nunca fui um seguidor fiel da banda, até porque apenas os devo ter conhecido em 2003, por alturas do lançamento do "100th Window" (álbum que adorei, tal como os restantes que vim a descobrir posteriormente). Não sei os nomes das músicas todas, mas reconheço uma enorme qualidade a estes ingleses.
Tendo em conta aquilo que conheço, este "Heligoland" parece-me uma mudança de sonoridade, mas não uma mudança de identidade. Em "Heligoland" temos músicas mais imediatas, menos produzidas, mas igualmente belas. A aura, essa continua intacta.
Assim, partimos para a descoberta do álbum com uma faixa de abertura que nos deixa de imediato com a "pulga atrás da orelha". Vemos logo ali diferenças em "Pray For Rain". As músicas seguintes - "Babel" e "Splitting the Atom" - assentam muita da sua identidade em beats bem marcados, sendo que a primeira tem um baixo a conduzir toda a melodia que sim senhor! A colaboração do já habitué Horace Andy é sentida na segunda música referida, bem como em "Girl I Love You", uma música delirantemente bela e talvez aquela que mais nos faz recordar os Massive Attack de há uma década, juntamente com "Rush Minute" - e que por sinal são das duas que mais aprecio.
De seguida, surge um abaixamento na qualidade do álbum, mas "Paradise Circus" traz de volta as grandes músicas do álbum, e a participação de Damon Albarn em "Saturday Come Slow" dá-nos a música mais distante do restante que se faz nestas 10 faixas.
No cômputo geral, parece um regresso em boa forma de uma das bandas mais influentes da última década e meia, e que acaba por não desiludir, dadas as grandes expectativas que tinha em cima.
Mas não esperem os mesmo Massive Attack dos anos 90, que eles estão diferentes (e ainda bem, é sinal que não ficaram parados no tempo!).

8/10

A Serious Man

"A Serious Man" é o mais recente filme dos irmãos Cohen, nomeado para os Oscars, depois dos dois últimos grandes sucessos "No Country For Old Men" e "Burn After Reading", películas das quais sou fã e que me fizeram investigar melhor a filmografia dos manos.
"A Serious Man" é o mais estranho filme que vi desta dupla.
"A Serious Man" está carregado de humor negro (escuro, escuro, escuro), um humor que chega a incomodar. É uma crítica profunda aos costumes de uma família judaica da segunda metade do século XX. É um filme cheio de mensagens subliminares, que muitas vezes me deixaram à deriva.
Diria que é o filme mais pessoal dos irmãos Cohen. É o filme em que menos se preocuparam com aquilo que estavam a fazer, em que se deixaram levar pela sua (estranha) vontade.
A história relata o quotidiano (e é mesmo isto que o filme pretende ser... O quotidiano banal) de um professor de Física e - em menor escala - do seu filho (um protótipo seu) numa pequena cidade americana. Todo o filme apresenta-nos essencialmente pensamentos, desejos ostracizados pela sua opção religiosa,  tentativas frustradas de resolver os problemas da sua vida, procurando ajuda em "rabis" de todo o género e espécie, sarcasmo em relação a toda a envolvente religiosa que as pessoas aplicam no desenvolvimento da sua vida, hipocrisia e falta de sinceridade/honestidade. E tudo isto acontece porque está rodeado de uma família típica e disfuncional.
A ironia começa logo no título. Fala-nos de um homem sério, mas o filme é tudo menos isso -e pelo menos em parte. Fala-nos de pessoas que tentam impor as suas vontades, tendo por base as suas crenças religiosas e deturpando as realidades dos factos, ajustando-as às suas necessidades e desejos, e de pessoas "inocentes" que se deixam levar por toda essa envolvente. Neste caso, é mesmo a personagem principal - interpretada de forma magnífica por Michael Stuhlbarg -, um homem culto e racional que se deixa engolir por toda a irracionalidade da vida religiosa e que rege todos os seus princípios por ela.
Não é um filme fácil, a comédia não é directa nem nos leva a rir às gargalhadas (se se pode aplicar o termo "comédia inteligente", é neste filme), mas é um ensaio irónico acima de tudo, que critica toda uma comunidade judaica, mas que não deixa de se aplicar aos nossos tempos e a todas as comunidades.
O trailer pode ajudar imenso a perceber algumas das mensagens do filme.
Em resumo, é mesmo um filme estranho, com um final de nos deixar "Então, foi isto?!". Mas o quotidiano é mesmo assim. 
Acho que da próxima vez que vir o filme vou gostar mais.

7/10

03 março 2010

Nine

Rob Marshall seduziu-me com "Chicago".
"Moulin Rouge" agradou-me bastante, apesar de inferior ao já citado - e apesar de ser de outro realizador.
Nunca vi muitos musicais na vida (além destes, só me recordo do tenebroso "Dreamgirls"), mas estes dois até que me deixaram com vontade de ver a próxima película do género de Rob Marshall, cheio de estrelas cintilantes e com um Daniel Day-Lewis que só entra em produções vencedoras.
"Nine" é uma adaptação de um musical da Broadway, misturado com uma adaptação de um filme de Fellini, e a acção passa-se em Itália, tratando a vida de um realizador desinspirado e mulherengo que sente a pressão de ter que apresentar um argumento em pouco mais de uma semana.
O filme centra-se acima de tudo no "drama" da vida de Guido, interpretado por Daniel Day-Lewis, e em todas as suas relações quotidianas com mulheres de todos os quadrantes, desde as musas dos seus filmes (Nicole Kidman), passando pela sua mãe (Sophia Loren), pela sua mulher (Marion Coutillard) ou pela amante (Penelope Cruz) ou ainda por jornalistas (Kate Hudson).
Toda a história se vai baseando nas fantasias de cada uma das personagens, e a forma como o realizador trabalha com a montagem dos diálogos, intercalados com as músicas é notável, imprimindo um bom ritmo ao desenrolar da trama. No entanto, nem sempre as canções são empolgantes (aliás, poucas são...), e é aqui que se começam a cavar as diferenças com "Chicago". O filme não puxa muito por nós, é algo insosso e estava à espera de mais.
Quanto ao elenco de luxo, pouco aparece (ou, quando aparece, não brilha), com excepção de Penelope Cruz e Marion Coutillard, que são de facto a mais-valia do filme. A espanhola tem um papel amalucado, mesmo à sua medida e a fazer relembrar "Volver" ou "Vicky Cristina Barcelona". Uma excelente actriz. 
Ver Daniel Day-Lewis a cantar é... estranho. Mas ele acaba por ter uma interpretação interessante de um italiano de meia-idade.
Resumindo, é um bom filme para passar o tempo, recheado de mulheres bonitas, com uma realização bem interessante. Mas pouco mais do que isso.

6/10

YEASAYER - "Odd Blood"

Os Yeasayer causaram furor em 2007 com o seu álbum de estreia. "All Hour Cymbals" foi uma pedrada no charco do pop, e a banda de Brooklyn conseguiu praticamente unanimidade naquilo que conseguiu produzir. Músicas pop cheias de energia, ritmo peculiar e qualidade indubitável.
A bitola estava elevada para o substituto do aclamado primeiro álbum.
"Odd Blood" foi aguardado com grande expectativa por mim, e o single de apresentação "Ambling Alp" fazia antever uma coisa em grande, muito na onda do álbum de estreia.
Mas o caminho mudou um pouco.
A estrada ficou mais sinuosa - leia-se mais inconsistente e inconstante -, a banda sonora da viagem continuou com grande ritmo, mas menos vibrante. O grande problema é que muitas vezes damos por nós à espera de saltar uma música, para que cheguemos à seguinte, que é melhor. É natural que isso aconteça em qualquer álbum, mas não é desejável que isso aconteça (quase) música sim, música não.
Assim, e indo ao que mais interessa, este "Odd Blood" tem grandes músicas, não haja dúvida, mas também tem outras em que desejamos que acabem o mais depressa possível. Destacando as coisas positivas, a já referida "Ambling Alp" é reconhecível a milhas de distância, "Mondegreen" e as suas palmas ritmadas devem ser um grande momento ao vivo - e também o é em CD. Depois, há ainda "ONE" ou "Rome", músicas bastante competentes, sendo a primeira a fugir para sons synth-pop e a segunda a entrar em altas rotações.
Mas o momento alto do álbum aparece à 4ª música. "I Remember" invadiu-me os poros todos desde a primeira audição, fez-me todos os pelinhos do meu corpo ficarem hirtos, fez-me procurar a letra e o seu significado. E tendo em conta o momento em que me chegou, não me podia dizer muito mais. A voz em falsete de Chris Keating é completamente arrebatadora.
Em conclusão, "Odd Blood" não é perfeito, não chega ao nível de "All Hour Cymbals", mas tem músicas absolutamente deliciosas, que nos fazem acreditar que estes gajos do art-pop nova-iorquino ainda podem fazer boas coisas pela música nos próximos tempos.

7/10

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